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─ A HISTÓRIA, trama

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─ A HISTÓRIA, trama

Mensagem por Calypso em Ter Jul 19, 2016 11:50 am

O prólogo

"Talvez antes do almoço eles alcançam o canal. Heh.", disse o jovem sentinela. "O que acha?"



"Isso não é do meu dever.", disse Areo Hotah. Servir. Proteger. Obedecer. Votos simples para homens simples, pensou a prole de Hefesto.



A manhã estava calma como todas as outras, porém, algo novo projetava a vasta paisagem além do Portão do Estranho. Uma galé imigrante, foi o que o Hotah viu desde a noite passada, estava um dia de viagem, hoje está muito perto, talvez amanhã em terra.



"E se forem inimigos? Digo, e se eles nos atacarem?"



O rapaz não deveria ter mais de vinte e dois anos. Muito belo para ficar fritando sob a luz do sol. O chamavam Cetim em toda Cidadela. Hotah não sabia quase nada sobre o jovem. O único fato que ele e todos guardas sabiam, era que o rapaz se tratava de um bastardo criado em um bordel qualquer, cujo seu nome veio graças a sua beleza, algo comum para crias de Afrodite. Era perfumado, podia dizer; até mesmo sua barba pontiaguda no queixo cheirava flores.



"Se tentarem irão sentir o beijo da minha Senhora", disse, enquanto acariciava o cabo de freixo de seu grande machado, Lys era seu nome.



"Heh. Sim, sim. E também irão sentir o meu Toque de Rosas. Heh."



Cetim pousou a mão sobre o chicote de couro marrom com pequenas pedras brilhantes em forma de pétalas de rosas. Toque de Rosas, era como o bastardo do bordel chamava a arma.



"Pois bem. Não iremos mesmo averiguar?"



"Nosso dever é com o Portão do Estranho. Devemos proteger o lado de dentro, não o de fora", Areo se irritava facilmente com a prole de Afrodite, principalmente aquele risinho presunçoso dele. "Ande, vá buscar o berrante e o monóculo."



Três horas mais tarde, fora o tempo tido com exatidão.



Hotah espremeu seus olhos marrons para tentar fitar a distância entre o canal e a embarcação. Menos de uma hora. O Sentinela nunca se interessou pela vida no alto-mar, mas passar metade da vida por cima de uma muralha fitando um infinito azul além das matas, era de se aprender algo. Não ouvia nenhum "heh" desde que Cetim o deixara para cumprir a ordem:



"Mas que diabos", Hotah disse para si mesmo. "Ele deve está se agarrando com outra camponesa."



Era frequente enviar Cetim para buscar algo; vinho, notícias, mensagens. Mas buscar o que pediu três horas mais cedo, era raro. Maior que a frequência de ordens, era a de atraso do jovem.



"Ele é novo demais", Areo disse para seu superior. "Um garoto verde como ele, da natureza dele... Senhor, ele é de um material diferente, se me entende." Servir. Proteger. Obedecer. Votos simples para homens simples. Fora o que aprendera com seu mestre.



Quando Cetim trouxe o pedido, já era tarde demais. A barcaça já tinha descido o canal.



"Heh. Parece que irão descer o Ramo Vermelho. Boa sorte à ele. Heh." Disse enquanto montava o monóculo.



"Ande com isso", Hotah prendera o velho berrante na anca esquerda. "O Ramo Vermelho é perigoso, tanto pela água como pela floresta que o cerca." Areo tomou o objeto das mãos alvas e delicadas do rapaz e arrumou o cristal ele mesmo. "O crepúsculo está chegando", disse como um suspiro de angústia. Tyene também fora seguir o canal, e nunca mais voltou. Se eu olhar para trás, estou perdido. Não, não devo pensar mais nela, isso foi a anos atrás, se forem inteligentes o bastante irão parar ali mesmo e retomar a viagem pela manhã.



O Crepúsculo passou e o céu já estava banhado em estrelas com uma fatia de lua clareando do céu. Areo Hotah já estava no chão, em sua casa atrás das forjas que um dia fora seu ofício. Estava bebendo um vinho forte quando bateram em sua porta.



"Por Júpiter, Cetim. O que faz aqui?", indagou deixando o jovem entrar. Cetim estava trajado com um manto lilás de cavalgada e botas longas, seu chicote estava preso em sua cintura esbelta.



"Trabalho. Heh. Sabia que aquela galé ia trazer dor de cabeça. Eu disse, eu disse! Heh." Com seu sorriso que Hotah tanto odiava, Cetim girou o corpo e voltou para o garanhão de batalha que trouxera. "Tenho um para você, venha logo, Hotah!"



O filho de Hefesto não teve escolha, vestiu sua cota de malha e prendeu sua placa de peito. Quando chegou a montaria trazia consigo a Senhora Lys. O casebre que Areo morava ficava no Quinto Distrito, então a cavalgada até o Portão do Estranho era questão de meia-hora. Tempo suficiente para saber que diabos está acontecendo no meu Portão, pensou indignado. Cetim lhe contara tudo durante o trajeto.



"Uma caçadora viu, eu lhe digo. Heh." Virou-se para Hotah. "A galé virou no Ramo Vermelho. Não se sabe o motivo, porém acharam os destroços na margem do canal junto de roupas molhadas. As caçadoras não ousaram tocar em nada. Escamagris, disseram. Mas eu não acredito nisso. Heh", Hotah nada respondeu, precisava pensar.



"E o que Qyburn disse sobre isso?", indagou com sua cara carrancuda de habitual.



"Hmm, rapaz. Vá lá e descubra. Não confie em uma caçadora. elas exageram, são mulheres afinal." Cetim dizia, deixando sua voz doce mais grave, tentando imitar seu superior, "Vá, vá ele disse. E eu estou aqui. Heh."



"Ele quer que você vá sozinho na Floresta Assombrada essa hora?" Hotah não podia esconder o espanto na voz e no rosto Se eu olhar para trás, estou perdido. "Você vai mesmo?"



"Claro que sim! Sou muito mais do que um rosto bonito em uma muralha velha. Heh, heh."



Tão jovem, belo e tão tolo. O Sentinela pensou, triste porém lembrou-se de seus votos. Servir. Proteger. Obedecer. Não jurei questionar ordens.



Quando chegaram ao velho portão de ferro, ambos desmontaram e caminharam para as manivelas. Muito dos grandes braços de Hotah foram graças às pesadas manivelas do mesmo material do portão. Grossas correntes cantavam uma canção de aço enquanto os Sentinelas abriam a passagem. Hotah teve de diminuir o ritmo, a força de Cetim não chegava aos pés das suas. Quando terminam, Cetim puxou seu capuz para esconder seus cabelos louros dourados do vento que vinha do norte.



"Até amanhã, Grande Hotah. Se eu não voltar, diga isso as putas da ilha, mande-as foderem pensando em mim. Heh." Pressionando os pés contra o dorso do garrano, a montaria ergueu as patas dianteiras e avançou pela trilha de terra batida.



"Irei rezar para que Mercúrio lhe guie, seu bastardo ridículo." Areo não iria dormir e mesmo se quisesse não iria conseguir. Subiu as escadas sinuosas da muralha, ficando sobre as ameias fitando sob a luz dos archotes, Cetim ir em direção ao norte.



A alvorada invadiu o céu, Areo Hotah, permanecia em seu posto, imóvel como uma gárgula vigiando a estrada. Nada do bastardo, ele irá voltar. Não será igual a Tyene. Porém, o bastardo do bordel não voltara, nem na hora do almoço, nem depois. O crepúsculo invadiu os céus e nenhum vislumbre dele. Se eu olhar para trás, estou perdido.



Se passara uma semana desde a partida do jovem. Seu nome era Cetim, e ele veio de um bordel, Hotah se lembrou. Ele tinha os cabelos louros e sua pele era lisa e delicada como o tecido de Cetim. Muito belo para ficar em uma muralha, muito novo para morrer desaparecido.



"Talvez ele tenha achado fácil se engraçar com alguma caçadora, ou esteja ganhando a vida com seu chicote nas Arenas de Nagga." Areo tentava escrever a carta, porém as letras era uma arma que ele não sabia lutar. "Cetim escrevi-as para mim. Se ele fez fugiu, ele desertou a Patrulha. E se eu achá-lo devo fazer ele limpar a honra da Ordem com seu sangue."



A tempo de se fazer duas semanas do desaparecimento do jovem guarda. Hotah fora surpreendido quando a visão de um garanhão de batalha cruzar as árvores marciais e chegar ao Portão do Estranho.



Hotah não se recordava quando foi a última vez que desceu a muralha tão rápido. Em questão de minutos já estava no solo, abrindo a passagem.



A sua pressa por sair fora tamanha que esquecera de travar as manivelas e após sair, a passagem se fechou. Terei de me virar para voltar, pensou enquanto caminhava em direção do cavalo. O garanhão estava ferido, porém seus cortes estavam cicatrizados. Não, o consciente da prole de Hefesto o alertou. Deuses, o sangue petrificou. Areo Hotah sabia o que aquilo significava. Tirou Senhora Lys da bandoleira que circulava o seu dorso, e com um movimento rápido cortou a cabeça do animal o dando uma morte limpa e rápida.



Seu enorme machado tinha em sua lâmina pedaços de couro endurecido e negro, o sangue do animal pendia como uma gosma endurecida no esplendor do aço da Senhora Lys. Deuses, orou, Deuses. Oh pai, ajudai-me agora, faça que isso seja apenas um engano. Cetim não... Ele era jovem demais, belo demais para morrer desse modo.



Hefesto estava surdo ao clamor de seu filho.



O cheiro de maresia e sal do mar invadiu as narinas de Areo. Água vermelha, do rio vermelho, pensou. Da mesma estrada que a montaria saíra, chegava um trio de o que se podia chamar de humanos. Vestiam restos do que um dia foi um manto, estavam molhados e o último que vinha do trio deixava uma trilha úmida em seu caminho. Eles sobreviveram ao naufrágio do Ramo Vermelho, pensou enquanto recuava alguns passos. A pele de seus braços davam espaço a uma camada de ferro até os cotovelos. Mas não sobreviveram a praga que aquelas águas levam em si.



O primeiro veio,sua corrida era desajeitada e estava mais para arrastar os pés do que correr. Quando caminhava o vento empurrou os trapos do capuz para trás e deu visão de uma jovem mulher. Seus cabelos loiros deu lugar a velhos fios brancos, seus olhos eram cinzas como o céu de inverno. Uma prole de Atena, Areo refletiu enquanto esperava o momento para cortas o ar em diagonal e acertar a mulher com um único golpe mortal. E ela veio, trazia nas mãos uma pedra do tamanho do punho de Hotah, ele não teve medo, girou o corpo invés de só fazer o movimento que desejava. O impacto do golpe acertou a mulher em cheio a abrindo sua barriga em dois a arremessando contra o tronco de uma árvore seca. O Sentinela viu sua pele de perto, estava cinza como seus olhos; dura, como pedra. Seu lábio inferior estava soltando de seu rosto e parecia prestes a se desmanchar. Areo Hotah ergueu seu machado para o próximo. Era robusto e tinha metade de uma das bochechas arrancada, a outra estava sólida como rocha. A prole de Hefesto rugiu quando acertou seu ombro depois de andar para a esquerda, o corte somou a sua força bruta cortando a cria de Dionísio até a virilha.



Só mais um, disse a si mesmo. Fazia anos que ele não lutava. Vivi pelo meu dever, e irei morrer por ele... se a vontade dos Deuses assim for.



Dessa vez, não esperou o adversário vir, correu em sua direção arrastando a Senhora Lys pelo chão. Quando ergueu para atacá-lo foi parado por algo rápido, úmido e sorrateiro. Um chicote, pensou na mesmo minuto. O cheiro, o cheiro de rosas e outros perfumes, o chicote... teve um vislumbre dele, era de couro marrom, tinha umas pedras rosas presas em si. Toque de Rosas. Seu adversário veio contra si, Hotah pegou pelo chicote e com um puxão lançou o desgraçado por cima de sua cabeça e o jogou em cima do outro. Cetim, ele tremeu. Servir. Proteger. Obedecer.



Não podia ver o rosto do encapuzado dessa vez, mas via que faltava um nariz nele. E estava sem roupas da cintura pra baixo, pode ver o membro viril do homem, pelo menos o que sobrara. Piranhas do rio devem ter levado o resto. Cetim não tinha manto ou roupas na parte superior. Metade se seu corpo era pedra negra. Um olho faltava em seu rosto. Pobre Cetim...



Ambos vieram cambaleando contra Areo, ele ergueu o machado e atingiu o desconhecido, porém não com força suficiente. Ele se ergueu vomitando uma mistura de sangue e água do Ramo Vermelho. Cetim viera em seguida, rastejando igual um animal deficiente, mordeu a perna de Hotah com tanta força, seus dentes perfuraram a massa de carne torneada fazendo o Sentinela cair de joelhos. O outro veio em direção urrando quando pulou sobre Areo Hotah, rasgando sua garganta com auxílio de uma pedra.



Eu servi. Protegi. E Obedeci. Agora minha passagem pela terra dos homens se encerra... Se eu olhar para trás, estou perdido. Tyene me espera em algum lugar. Sei disso.



Aquilo que se tornou Cetim, arrastava com dificuldade o corpo de quem um dia dividira uma muralha sobre o dever de proteger o portão. Hotah rezava em seu interior para morrer antes que fosse possuído pela praga que os homens chamavam de Escamagris.

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